O blogue
May 12th, 2010

MANIFESTO CICLONE

Acreditamos que uma bicicleta deve ser bonita, confortável, duradoura e única. Somos ciclistas do dia-a-dia e temos a ambição de servir melhor aquilo que nós próprios usamos. Somos profissionais para quem a perfeição técnica importa menos do que a satisfação emocional e não vivemos obcecados com os gramas que uma campainha pode acrescentar à bicicleta. Se for bonita, se tilintar uma nota solta com que nos aprazemos ou que provoque a reacção a que a nossa vaidade aspira, é a campainha dos nossos sonhos. O nosso compromisso é para com a funcionalidade e estética da bicicleta.

Pela expressão individual do gosto

Gostamos de construir bicicletas. Desafiar as possibilidades, cometer erros, voltar a tentar. Um processo sinuoso e interessante, impossível na produção em série com a qual não queremos concorrer, antes colaborar. Um produto acabado saído de fábrica tem as suas vantagens, só não é criativo. O conhecido construtor italiano Giovanni Pelizzoli diz-nos “a bicicleta não é uma máquina, o Homem é a máquina e a bicicleta o instrumento que lhe permite expandir a sua criatividade”.
Aliamos a nossa mão-de-obra ao capital simbólico de cada um. É a criatividade individual que deve produzir, inovar, revolucionar – a mão-de-obra é posta ao seu serviço. Gostamos de construir bicicletas, nada melhor do que fazê-las sempre diferentes.

Pela valorização do trabalho e do processo

Eis o que nos une, consumidor e produtor. A vontade de fazer diferente, fazer exclusivo, servir um propósito. Nós valorizamos o desejo, o sonho, a preguiça, a perseverança…tudo o que motive pessoas a tomar decisões, a escolher, pensar, não-pensar, deixar fazer, rejeitar. Valorizamos os processos, desde a escolha à construção. Queremos que nos valorizem por isso – pelo nosso compromisso com o trabalho de construção artística, mecânica, experimental… A bicicleta é o meio que veicula esta união, é um veículo!…

Portuguesa como a pêra rocha e o galo de Barcelos, não como o bacalhau (que vem de fora)

Tal como as ideias, a matéria está ao nosso lado. Somos de Lisboa, Portugal, país exportador de bicicletas. Existe uma história e infra-estrutura a serem exploradas. Existem construtores e artesãos, existem produtos e ideias. Gostamos de usá-los!

Queremos promovê-los, divulgá-los e misturá-los com tudo o resto. Bicicletas com identidade, com cunho criativo, nascem da simbiose entre diferentes componentes e das histórias por detrás de cada um.

Comprometemo-nos a produzir em Portugal os nossos produtos de marca própria. O mesmo não podemos garantir em relação às nossas fontes de inspiração. E ainda bem.

Se, por alguma razão, algum dia nos virmos obrigados a produzir noutro país, teremos que refazer a linha acima desta. Se não, esta linha fica sem efeito.

(Sub-)manifesto Reciclone

A produção criativa não deve ser feita às custas do desperdício de material usado. Achamos que as peças ferrugentas e emperradas dão trabalho e, ainda assim, valem o esforço! São peças com história, elegantes ou grosseiras, e algumas trazem-na cravada com os nomes de antigos proprietários ou fabricantes. Não queremos ser responsáveis pela amnésia provocada pela ânsia do moderno. Gostamos da cópula inter-geracional de componentes numa bicicleta.

Queremos disponibilizar uma gama mais acessível sem comprometer a funcionalidade e a estética. Por isso somos pela reutilização de material que valha a pena. Se durou até aos nossos dias, é provável que ainda esteja em bom estado. Além disso, a funcionalidade dos materiais varia consoante a finalidade que lhe queremos dar. Se não estiver bom para aplicar numa bicicleta, que se recicle.

Todos nós queremos ter a possibilidade de escolher para lá da oferta comercial tradicional

Todos merecemos uma bicicleta ajustada à nossa condição física, económica, social, estética…

Toda a gente tem direito a uma bicicleta que funcione!

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